'NÃO VEJO NENHUM SENTIDO DE O BRASIL SAIR DA OMS', DIZ PRESIDENTE DA FIOCRUZ
- redação

- 7 de jun. de 2020
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Se tivermos aglomerações, infelizmente os casos aumentarão', afirma Nísia Trindade
Nísia Trindade Lima, presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), defendeu, em conversa ao vivo com a coluna pelo Instagram neste sábado, a permanência do Brasil na Organização Mundial da Saúde (OMS), possibilidade cogitada por Jair Bolsonaro na sexta-feira.

"Não vejo nenhum sentido de o país sair da OMS. O Brasil, inclusive, propôs sua criação após a Segunda Guerra. Cooperação internacional é fundamental e faz parte da história da Fiocruz, especialmente na pandemia", disse a pesquisadora.
Bolsonaro ameaçou retirar o país da OMS, acusando-a de"viés ideológico", sem apontar por que dizia isso.
À frente da fundação que completou 120 anos em maio, Trindade pediu cautela ao flexibilizar o isolamento social e sentenciou:
"Em estados com muito casos de Covid-19, como o Rio, as medidas de isolamento devem ser mantidas. É preciso muito cuidado. Temos de proteger vidas. Se tivermos aglomerações, infelizmente teremos aumento de casos".
Nísia Trindade afirmou que a Fiocruz terá capacidade de produzir para todo o país a vacina definida contra o coronavírus, e defendeu que a transparência de dados da pandemia é tão vital quanto uma vacina.
Leia os principais trechos da entrevista:
Estamos perto de alcançar o pico do coronavírus no Brasil?
Não dá para afirmar de forma muito segura. Isso vai depender das medidas tomadas neste momento. Para fazer efeito, cada medida leva 15 dias, que é o ciclo da doença. Em geral, há uma expectativa de que ainda haja aumento de casos nas próximas três semanas. Mas os cenários mudam a cada dia. O mais importante é compreendermos que a situação exige muito cuidado. Se tivermos aglomerações, infelizmente os casos aumentarão.
Em que pé estão as pesquisas no mundo para encontrar uma vacina contra o coronavírus?
No momento, a forte tendência é de que ela venha do exterior, onde as pesquisas estão mais avançadas.Existem diferentes vacinas em desenvolvimento, em todo o mundo. Algumas estão em ensaio clínico, com pesquisas em pessoas para avaliar-se a eficácia, com critérios éticos e científicos bem precisos. Estamos analisando junto ao Ministério da Saúde e laboratórios as vacinas mais avançadas, e o que será necessário para o Brasil produzir uma vacina, após comprovação de segurança e eficácia. Teremos condições de produzi-la. Há importantes grupos de pesquisadores no Brasil, inclusive na Fiocruz, trabalhando em vacinas.
Quanto tempo isso levaria?
É muito difícil obter uma vacina em menos de 18 meses. Estamos fazendo o máximo para que isso ocorra o quanto antes, para que a população brasileira tenha acesso à vacina, por meio do Sistema Único de Saúde. Houve uma decisão muito importante na OMS para que vacinas e medicamentos contra a Covid-19 sejam considerados bens públicos.
Qual é a importância da OMS? O presidente afirmou que estuda retirar o Brasil do grupo.
Não vejo nenhum sentido de o país sair da OMS. O Brasil, inclusive, propôs sua criação após a Segunda Guerra. Cooperação internacional é fundamental. Há fóruns para reorientar ações. Trabalhamos muito com outros países. A cooperação internacional faz parte da história da Fiocruz em seus 120 anos. Assim que a fundação foi criada, tivemos de perto a experiência da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e tantos outros pesquisadores brasileiros foram reconhecidos lá fora.
O isolamento social tem sido afrouxado em vários estados. É o momento?
Em estados com muitos casos, como o Rio de Janeiro, deve-se manter o isolamento. É importante analisar cada cenário. Não é uma regra só para todo o país. Muitas pessoas ainda estão sujeitas a contrair a Covid-19. Há que se ter muito cuidado nessa hora, com atenção especial ao transporte público. A classe média tem condições de trabalhar em casa. Temos de proteger vidas.
Por que é importante exigir transparência na divulgação de dados da doença? O governo agora oculta o total de mortes.
Fala-se muito em testes, leitos de UTI, atendimento de saúde, mas a informação, com transparência, é um instrumento fundamental contra o coronavírus. A Fiocruz contribui para importantes sistemas de análise de dados. Sem dados atualizados da doença, é impossível estabelecer diretrizes na pandemia. Os dados estão em patamar de importância de vacinas e testes: são vitais. Não estamos falando de verdades absolutas, mas a ciência tem método, pode ser demonstrada e checada. Por isso, há grande aproximação entre ciência e democracia.
Assista ao vídeo da entrevista:



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