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Dólar desacelera, mas segue nas alturas e brasileiros trazem dinheiro de fora


Dólar alto é irresistível para quem tem recursos lá fora realizar lucros no Brasil, diz Fernando Bergllo, da FB Capital Foto: Valentyn Ogirenko/Reuters


O dólar nas alturas fez crescer a quantidade de dinheiro trazida do exterior por brasileiros. A escalada da moeda dos Estados Unidos, que perdeu força nas últimas semanas, foi motivada justamente pelo movimento oposto, de fuga de capitais. A incerteza gerada pela crise do coronavírus provocou uma onda de aversão ao risco em todo o mundo e fez investidores retirarem recursos aplicados em mercados emergentes, como o Brasil, para apostarem em ativos considerados mais seguros.


De janeiro a maio, o fluxo cambial, que leva em conta a quantidade da moeda americana que entra e deixa no país, ficou negativo em US$ 9,6 bilhões. 


Mas se os estrangeiros levam seus dólares para fora do país, por outro lado, brasileiros estão aproveitando a cotação alta para trazer quantias aplicas lá fora de volta e acumular mais reais. O dólar chegou perto dos R$ 6 em maio, mas agora está em um patamar perto dos R$ 5,00. Ainda assim, a valorização acumulada neste ano chega a 26,7% e especialistas esperam que a "repatriação" continue enquanto a moeda valer mais que R$ 4. 


“O dólar acima de R$ 5 é irresistível para quem tem recursos lá fora realizar lucros aqui”, diz Fernando Bergallo, sócio da FB Capital. “O brasileiro está olhando para a taxa de câmbio de quando que ele mandou o dinheiro, o estrangeiro não faz essa conta”.


Antes da crise, cerca de 90% das operações feitas na corretora correspondiam à saída de recursos. Os volumes de entrada começaram a aumentar a partir de março e, em maio, superaram os envios pela primeira vez, chegando a 60% do total. “É algo que nunca se viu”, afirma Bergallo.


Ele conta que clientes que compraram imóveis em Miami durante o "boom" de 2012 (quando o dólar valia próximo de R$ 2), por exemplo, estão agora vendendo esse patrimônio para lucrar com a taxa de câmbio. "Muitos nem tinham a intenção de se desfazer dos imóveis, mas aproveitaram a oportunidade."


O movimento também foi observado pela Frente Corretora. Empresários têm trazido recursos aplicados fora do país diante da maior necessidade de capital gerada pela crise e também das oportunidades de fazer aquisições, segundo Fabrizio Velloni, chefe da mesa de câmbio da Frente. "O caixa se valorizou lá fora e vai ser utilizado aqui."


De acordo com o Banco Central, nos quatro primeiros meses de 2020 (dados mais recentes), regressaram ao Brasil US$ 6,6 bilhões em investimentos diretos, categoria que abrange a compra e venda de imóveis e também aportes de empresas. O volume é 753% maior do que os US$ 779 milhões trazidos em igual período de 2019 e 49,6% superior ao trazido durante todo o ano passado, de US$ 4,4 bilhões. Só em abril, US$ 1,727 bilhões retornaram para o país, contra US$ 365 milhões um ano antes, alta de 373%.


Já os investimentos feitos no exterior partindo do Brasil somaram US$ 3,818 bilhões no quadrimestre, queda de 2,8% contra os US$ 3,928 bilhões aportados entre janeiro e abril de 2019. Em abril, os valores somaram US$ 289 milhões, queda de 82% em relação aos US$ 1,614 bilhão aplicados um ano antes.


Transferências diretas

A crise e o câmbio alto também fizeram crescer o envio de quantias por pessoas físicas para o Brasil via transferências. “Vejo aumentar muito o fluxo de pequenas remessas para ajudar familiares”, diz Velloni, da Frente. A corretora tem participação em uma empresa especializada nesse tipo de operação, a Star, sediada na Flórida.


A quantidade de dinheiro trazida para o Brasil pelo serviço online TransferWise atingiu em maior o maior nível desde que a empresa começou a operar no país, há quatro anos. “Tivemos uma alta histórica, um volume 50% maior do que o pico anterior, atingido em agosto do ano passado. Isso aconteceu por conta do dólar, ligada à Covid-19”, diz a gerente-geral Heloisa Sirotá.


Para se ter uma ideia do efeito da valorização do câmbio, em dólares, o volume transferido para o país pela empresa em março e abril foi 12% maior do que a média transacionada em 2019. Mas, convertido em reais, o aumento sobe para 34%.


Nos quatro primeiros meses do ano, US$ 1,056 bilhão foram trazidos para o Brasil via transferência direta entre pessoas físicas, contra US$ 920 milhões no mesmo período do ano passado, uma alta de 14,7%. Apenas em abril, foram US$ 235,6 milhões, 3,5% mais que um ano antes, conforme os dados do BC.


Por outro lado, US$ 72 bilhões foram enviados no primeiro quadrimestre, volume 59% menor do que o registrado um ano antes. Em 2020, o pico nos valores trazidos para o Brasil foi de US$ 325,9 milhões, registrado em janeiro. Foi o segundo maior volume de toda a série histórica do BC, iniciada em 1995. Os valores só ficam atrás dos de maio de 1995 (US$ 386 milhões) e outubro de 2008 (345,1 milhões). 


Outros investimentos

Investidores também têm se desfeito de aplicações em renda variável que se desvalorizaram fora do país para ter algum ganho na conversão na hora de trazer o dinheiro de volta.

"De janeiro a abril, o Dow Jones perdeu 14,7%. Na cotação média, o dólar teve valorização de 27% no mesmo período. Seria um ganho de mais 12% enquanto o mercado estava despencando", exemplifica Velloni. 


Bergallo, da FB Capital, afirma que a valorização do câmbio é tão intensa que a jogada continua significativamente interessante mesmo com a perda lá fora e depois de descontados todos os impostos envolvidos. "Do primeiro pregão do ano até o dia em que o dólar atingiu R$ 5,90, a alta era e 47%. Nenhum ativo lá fora perdeu valor nessa magnitude”. Para ele, o movimento só deixará de valer a pena quando a taxa de câmbio estiver abaixo de R$ 4.


O paulistano Thiago Von Ancken, que mora há um ano na Inglaterra, sente que perdeu uma janela de oportunidade com a desvalorização recente do câmbio. Como o real também subiu frente à libra, ele calcula que deixou de ganhar R$ 7 mil ao enviar dinheiro para o Brasil neste mês, e não em maio.


"Tive um atraso no recebimento do meu dinheiro aqui em Londres e isso me fez perder uma quantia considerável", diz o advogado, que está organizando sua festa de casamento no país para o início de 2021.


Os dados do BC mostram que o volume obtido com a venda de ações no exterior aumentou. Nos quatro primeiros meses deste ano, foram US$ 913 milhões, contra US$ 396 milhões em igual período do ano anterior. Em abril, foram US$ 232 milhões, contra US$ 113 milhões um ano antes.


Mas o volume comprado em ações fora do país também cresceu e é superior ao das vendas. Acumula US$ 1,6 bilhão no ano, contra US$ 422 milhões em igual período do ano passado. 

Para Bergallo, o movimento de trazer de volta o dinheiro que está fora do país só não é maior porque a fraqueza da economia e incerteza quanto ao agravamento da dívida do governo ainda inibem aportes em renda variável no Brasil e a renda fixa não é atraente com os juros baixos.


"Com a crise fiscal super aguda, a pessoa traz o dinheiro e faz o que com ele aqui?", questiona.


É preciso fazer conta


Quem vai trazer dinheiro investido no exterior tem de fazer algumas contas. No caso de investimentos, é preciso lembrar que os rendimentos são sujeitos a impostos no país de origem. Depois de trazido o dinheiro, é preciso pagar imposto de renda sobre o ganho de capital obtido com a conversão do câmbio. Segundo Bergallo, na FB Capital a alíquota do IR nesses casos tem girado em torno de 15%. 

Além disso, sobre qualquer transferência de dólares incide o Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF), cuja alíquota é 0,38% ou 1,1%, a depender de a transação ser feita entre contas de uma mesma pessoa, ou para terceiros.

 
 
 

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