Dia Internacional de Combate à Homofobia, Bifobia e Transfobia é celebrado neste domingo, 17 de maio
- redação

- 17 de mai. de 2020
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Pessoas LGBTQIA+ relatam violência e preconceito na PB; 'Sabia que minha vez ia chegar', diz vítima
Fernanda (nome fictício) sofreu violência por ser lésbica pela primeira vez dentro de casa. Foi no dia em que se assumiu homossexual. A própria mãe a bateu, preocupada com o que os outros iam pensar, afirmando que as pessoas iam questionar o tipo de educação que a filha recebeu. Fernanda é professora, em João Pessoa, e não mora mais com a mãe há quase um ano. A relação familiar ainda existe, mas a vida amorosa da filha é um assunto que nunca é abordado entre as duas.
"Fiquei triste na época, mas quase todas minhas amigas passaram por algo similar e eu sabia que minha vez ia chegar... Sempre chega", lembrou.
O Dia Internacional de Combate à Homofobia, Bifobia e Transfobia é celebrado neste domingo, 17 de maio.
Fernanda não entrou para as estatísticas de violência contra pessoas LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bi, trans, queer/questionando, intersexo, assexuais/arromânticas/agênero e mais) no estado, pois nunca denunciou a violência que sofreu às autoridades. Porém, a Delegacia de Crimes Homofóbicos, Ético-raciais e Delitos de Intolerância Religiosa registrou 58 casos de crimes cometidos contra pessoas LGBTQIA+ apenas em 2019:
33 foram ocorrências de homofobia (classificação que abrange toda a comunidade);
15 de violência doméstica familiar;
4 de crimes patrimoniais;
3 de preconceitos a pessoas com HIV;
2 de menor potencial ofensivo;
e 1 lesão corporal.
Crimes registrados contra pessoas LGBTQIA+ na Paraíba
No total, foram 58 casos registrados na Delegacia de Crimes LGBTfóbicos, Ético-raciais e Delitos de Intolerância Religiosa
Homofobia: 56,9 %Violência doméstica familiar: 25,86 %Crime patrimônial: 6,9 %Preconceito a pessoas com HIV: 5,17 %Crime de menor potencial ofensivo: 3,45 %
Fonte: Polícia Civil
Fernanda acredita que a maioria da violência sofrida por mulheres lésbicas ou bissexuais é sofrida dentro de casa. "É a mãe, pai, irmão, tio ou outra pessoa com vínculo afetivo que agride de alguma maneira por não aceitar, e às vezes até por crer que é um corretivo", comentou.
A afirmação foi feita sem comprovações científicas, com base apenas em relatos de amigas e conhecidas. Mas a polícia embasa essa hipótese.
Segundo o delegado Marcelo Falcone, a maioria das ocorrências registradas na delegacia vêm do âmbito familiar, assim como aconteceu com Fernanda. “Geralmente vem de pessoas mais próximas: conhecidos, vizinhos, parentes. A LGBTQIA+fobia está em todos os lugares: nos públicos, no mal atendimento, em locais privados também”, disse o delegado.
Ainda de acordo com Marcelo, o agressor e tipo de agressão são diferentes de acordo com a identidade da pessoa. Conforme o delegado, mulheres trans/travestis tendem a sofrer mais com a violência de rua ou com ataques de companheiros. Já as mulheres lésbicas são a maioria das vítimas de ocorrências de violências dentro de suas casas. Ele ressalta que a Lei Maria da Penha também pode ser aplicada em ambos os casos.
Fernanda não sofreu apenas violência física. Ela também foi vítima de lesbofobia quando estava em um shopping de João Pessoa.
"Fui convidada a me retirar do shopping por ter dado um selinho na praça de alimentação. O segurança veio até nós e disse que não era local pra este tipo de comportamento, que a gente fosse para fora se quisesse beijar", relatou.
A jovem explica que ficou paralisada, mas que despois questionou o pedido do segurança, afirmando que o shopping era um ambiente público e que ela não estava cometendo nenhum crime. As duas ainda foram seguidas pelo segurança por um tempo, mas depois foi embora.
"Eu fiquei sem acreditar no que estava ouvindo porque foi a primeira vez que alguém me pediu tal coisa", disse.
Fernanda conta que não vê motivos para sofrer preconceito. Sempre estudou, foi a primeira da família a se formar, está construindo uma vida acadêmica e nunca cometeu nenhum crime.
"Fiquei chateada por ter ouvido que não era ambiente para mim. Volto lá apenas quando é preciso. Na verdade, eu evito frequentar ambientes que o público maior é hétero", comentou.
Vítimas de morte por identidade LGBTQIA+ na Paraíba em 2019 Mais da metade eram pessoas negras, um total de 6 vítimas. Mulher trans/travesti: 5Gay: 4Não identificado: 1
Fonte: SEMDH
Mortes de pessoas LGBTQIA+
Pelo menos 10 pessoas identificadas como LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais/transgêneros/travestis, queer, intersexo, assexual, outros) foram assassinadas em 2019, na Paraíba. Todas elas foram vítimas de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI), segundo a Secretaria de Estado da Mulher e da Diversidade Humana (SEMDH).
Segundo a SEMDH, entre as pessoas LGBTQI+ assassinadas em 2019, a maioria eram jovens com idades entre 18 e 33 anos, sendo cinco identificadas como mulheres trans/travesti, quatro foram identificadas como gays e um caso não identificado. Mais da metade eram pessoas negras, um total de seis vítimas. Além das mortes, a SEMDH registrou 48 denúncias do Disque 100 e 123, em sua maioria configurando como violência doméstica.
A secretária da SEDMH, Lídia Moura, afirma que a secretaria tem a convicção de que o preconceito e o ódio são dirigidos com maior intensidade contra as mulheres trans. “Essas discriminações causam e perpetuam as violências contra essas mulheres. Na escalada de violência e menosprezo terminam por considerar que as trans não têm direito a nada, nem mesmo à vida”, disse.



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