A Última Viagem da Lucette: A Incrível Sobrevivência da Família Robertson Após 38 Dias Perdidos no Oceano
- joaogabrieldantas2009
- 12 de set. de 2024
- 9 min de leitura

Douglas Robertson estava apavorado: além do medo ao sentir a água subindo rapidamente até seu quadril — antecipando o inevitável naufrágio do veleiro que servia como casa para sua família havia mais de dois meses — ele só conseguia pensar nas orcas que nadavam sob seus pés.
Douglas Robertson estava aterrorizado. A água subia rapidamente até seus quadris, sinalizando o iminente naufrágio do veleiro que havia sido o lar de sua família por mais de dois meses. Além do medo da situação, ele não conseguia tirar da mente a imagem das orcas nadando sob seus pés.
Assim começou o naufrágio que, em 1972, deixou Douglas e sua família à deriva no Oceano Pacífico por 38 dias. Durante esse período, eles sobreviveram à base de carne de tartaruga e peixes, enquanto racionavam a água potável que conseguiam armazenar das chuvas.
Essa extraordinária história é narrada em um episódio da terceira temporada do podcast
"Que História!", da BBC News Brasil. O episódio está disponível nas principais plataformas de podcast, como Spotify e Apple Podcasts, e também no canal da BBC News Brasil no YouTube.
O que inicialmente parecia um sonho para o pai de Douglas, Dougal Robertson, e sua esposa, Lyn, transformou-se em um pesadelo. O casal havia idealizado dar a volta ao mundo com a família a bordo de um veleiro. Após quase três anos de planejamento, venderam a fazenda que possuíam na Inglaterra e adquiriram a Lucette, uma escuna de 13 metros de comprimento que, eventualmente, acabaria submersa no oceano.
A Última Viagem da Lucette
Em 1970, Dougal Robertson, ex-capitão da marinha mercante, vivia com sua esposa Lyn, uma ex-enfermeira, e seus filhos em uma fazenda de gado leiteiro na cidade inglesa de Leek. Douglas recorda que a vida na fazenda nunca foi fácil, o que contribuiu para a decisão de embarcar em uma viagem ao redor do mundo com a família.
“Vivíamos no meio do nada, bem isolados, e meu pai acreditava que essa viagem seria uma maneira de educar os filhos na universidade da vida,” lembra Douglas.
Para concretizar o plano, tiveram que vender a fazenda e encontrar um barco adequado para a travessia, enfrentando críticas de parentes.
“Mas meu pai insistiu, afirmando que navegar pelo mundo era algo completamente diferente da vida que levávamos,” acrescenta Douglas.
Assim, Dougal, Lyn e seus filhos Anne, de 19 anos, Douglas, de 18, e os gêmeos Sandy e Neil, de 10, partiram a bordo da Lucette no dia 27 de janeiro de 1971, saindo de Falmouth, na Cornualha.
A primeira etapa da viagem os levou a Lisboa, em Portugal, e depois a Tenerife, nas Ilhas Canárias. Para o jovem Douglas, que havia acabado de completar 18 anos, o sol das Ilhas Canárias foi o sinal de que estavam realmente realizando a jornada “ao redor do mundo”.
Nas Ilhas Canárias, adquiriram um pequeno barco de fibra de vidro, batizado de Ednamair em homenagem às tias de Douglas, Edna e Mary, que financiaram a compra. Amarraram o Ednamair à popa da Lucette e continuaram sua viagem, passando 18 meses explorando diversos portos caribenhos.
Nas Bahamas, Anne, então com 20 anos, conheceu um homem e decidiu ficar lá com ele.
A família continuou a viagem sem Anne, mas ganhou um novo membro na tripulação: um estudante galês de 22 anos chamado Robin Williams.
Seguiram pela Jamaica e cruzaram o canal do Panamá.
A próxima parada foi Galápagos, e, a partir de lá, iniciaram uma travessia de 45 dias pelo Pacífico até as Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa.
O Ataque
"Era 10 horas da manhã do dia 15 de junho de 1972 quando o veleiro foi sacudido violentamente por três pancadas: Pá! Pá! Pá! Não sabíamos o que nos atingiu," recorda Douglas.
Naquele momento, eles estavam cerca de 320 quilômetros a oeste das Ilhas Galápagos. Douglas e Neil estavam no convés quando avistaram um grupo de orcas saindo da água, uma delas com sangue jorrando de um ferimento aberto na cabeça.
Douglas correu para encontrar seu pai, que estava no convés com a água já até os tornozelos. Antes que seu pai pudesse explicar que o navio estava afundando, a água já havia subido até sua cintura.
“Foi quando ele disse 'abandonem o barco', mas minha pergunta foi 'abandonar o barco para onde?'”, conta Douglas.
O terror começou a dominar o jovem: “Eu comecei a pensar que tudo era um pesadelo, que eu ia acordar e tudo ficaria bem.”
Douglas correu para inflar o bote salva-vidas de borracha do veleiro.
"Colocamos os coletes salva-vidas e entramos no bote. Fui o último a embarcar… Minha mãe começou a rezar o Pai Nosso. Ela era uma cristã devota. Meu pai era ateu, e eu também. Mas, naquele momento, pensei: 'Vou rezar o Pai Nosso, pois posso precisar de Deus a qualquer momento'", relembra Douglas.
A Lucette afundou em questão de poucos minutos. A família conseguiu levar para o bote inflável e o Ednamair o que puderam: um saco de cebolas, uma faca, uma lata de biscoitos, 10 laranjas, seis limões, foguetes de sinalização, alguns anzóis e um diário de bordo.
Tinha água suficiente para 10 dias e rações de emergência para três. Lyn também trouxe o kit de costura, que incluía uma caneta.
Era tudo o que tinham. Os seis se amontoaram no bote de borracha de 2,5 por 2 metros, coberto por uma tenda de lona, e amarrado por uma corda de arames ao pequeno barco de fibra de vidro. Sem mapas, bússola ou qualquer instrumento de navegação.
E o pior: ninguém sabia o que havia acontecido com eles.
Dura Realidade
Eles elaboraram um plano e decidiram seguir em direção ao norte, rumo à chamada Zona de Calmarias Equatoriais. Esta faixa ao redor da linha do Equador é conhecida por suas condições de baixa pressão, ventos calmos e muita chuva—uma fonte vital de água potável que eles precisavam desesperadamente.
Ali também passava uma rota de navegação, o que aumentava as chances de encontrarem um navio.
Prenderam uma vela a um mastro improvisado, feito com remos, no Ednamair, transformando o pequeno barco em uma espécie de rebocador para o bote de borracha.
“Seis dias depois, avistamos um navio ao longe. Disparamos cinco sinalizadores, mas ele não nos viu. Foi bastante desanimador,” relatou Douglas.
“Após dez dias, chegamos à Zona de Calmarias, mas o tempo estava quente e seco, o oposto do que esperávamos. Não havia muito o que fazer… Tivemos que esperar. E cerca de dois ou três dias depois, de repente, caiu a maior chuva.”
“Ficamos tão felizes que começamos a cantar na chuva… cantar na chuva fazia nossos pulmões vibrarem. Era uma forma de nos manter aquecidos, pois, a essa altura, praticamente não tínhamos mais roupas; elas tinham se desintegrado,” lembra Douglas.
Sobrevivência
Um grande desafio era a fome, que inicialmente resolveram comendo os peixes voadores que caíam no bote ou no barquinho. Logo, as tartarugas passaram a dominar a dieta da família Robertson.
“As tartarugas simplesmente apareciam nadando na nossa direção,” conta Douglas. “Na primeira vez, uma apareceu bem na minha frente enquanto eu remava o barquinho. Dei um golpe na cabeça dela com a alça do remo, mas ela continuou nadando. Consegui pegar a segunda tartaruga, mas, como suas nadadeiras são bem afiadas, me cortei todo e a passei para meu pai no bote. Porém, ele também não conseguiu segurar a tartaruga, e ela caiu no mar. Apenas a terceira tartaruga conseguimos capturar.”
“Comemos a carne vermelha crua mesmo. Depois começamos a secar tiras de carne no sol, em ambos os barcos, onde houvesse espaço. A carne seca podia ser armazenada por vários dias, e fizemos um estoque. Também descobrimos que podíamos beber o sangue da tartaruga, que não era salgado, como uma forma de substituir a água,” relata Douglas.
Mas chegou um momento em que ficaram completamente sem água. Lyn teve uma ideia inusitada: utilizar a água suja da chuva, misturada com sangue e gordura acumulada no fundo do barco de fibra de vidro, administrando-a diretamente no intestino através de um enema feito com tubos de borracha.
O enema é um dispositivo de borracha utilizado para introduzir água pelo ânus para lavagem intestinal. Era o único método viável para ingerir a água suja, pois as paredes do intestino absorviam a água, funcionando como uma espécie de filtro.
Além da sede e da fome, outro problema foi o vazamento na jangada. Dougal, Robin e Douglas se revezavam assoprando ar para dentro do bote, um trabalho extenuante que não impedia a água de entrar. Todos precisavam ficar sentados na fria água salgada por dias a fio, resultando em feridas espalhadas pelo corpo.
No décimo sétimo dia, o chão do bote se desintegrou, forçando os seis a se mudarem para o Ednamair, o barco de fibra de vidro que haviam usado como rebocador e para armazenar água e comida.
Levaram o que puderam, amarraram um pedaço flutuante do bote à proa do Ednamair e ergueram a tenda de cobertura, que também servia como vela. Em meio à vastidão infinita do oceano e do céu, eram seis pessoas espremidas em um barquinho de dois metros e meio, onde cada troca de lugar exigia um cuidadoso planejamento.
Sopa de Tomate e Salada de Frutas
Eles passavam o tempo falando sobre comida. “Alguém contava sobre uma sopa de tomate, por exemplo, e fazia a história durar 15 minutos. Todos ficavam atentos a cada detalhe. ‘Quanta pimenta você colocou?’ ‘Você usou manteiga também?’ ‘Seria pão crocante ou outro tipo de pão?’”
“Em uma noite, com muita sede, eu mascava pequenos pedaços de elástico para trazer umidade às nossas bocas e comecei a imaginar comida. Pensei em uma salada de frutas frescas que comeria de sobremesa, depois de um bife com ovo e batatas fritas. A visão era tão vívida que acordei meu pai e disse: ‘Pai, acabei de ter uma visão de uma salada de frutas frescas’. Em vez de ficar irritado por ter sido acordado, ele respondeu: ‘Conta mais, Douglas’. E eu compartilhei a visão com ele. Quando terminei, ele agradeceu e voltou a dormir.”
A boa notícia foi que, por alguns dias, tiveram água e comida suficientes para melhorar física e mentalmente. Continuaram se alimentando de peixes e tartarugas, e, a partir do 29º dia, uma novidade apareceu no cardápio.
“Tínhamos alguns anzóis e, em geral, pescávamos dourados-do-mar,” conta Douglas. “Além da carne, aproveitávamos a água doce dos olhos do peixe e do saco que eles tinham entre as vértebras da espinha. Uma vez, enquanto estávamos pescando, um tubarão mako, de cerca de um metro e meio a um metro e oitenta—aproximadamente dois terços do comprimento do barco—ficou com um anzol preso bem debaixo do olho. Estava ali à nossa mercê, mas não sabíamos o que fazer. Como levar um tubarão para o barco e matá-lo?”
“Elaboramos um plano: puxar a linha até o tubarão ficar ao lado do barco, pegá-lo pelo rabo e puxá-lo para dentro do barco, deixando a cabeça para fora. Meu pai tentaria matá-lo, enquanto minha mãe colocaria um remo na boca do tubarão para que ele mordesse o remo e não a ninguém,” explica Douglas.
“O plano funcionou perfeitamente. Na verdade, foi mais fácil do que esperávamos, porque o tubarão não consegue se mover fora d'água. Achávamos que ele se debateria e seria difícil de segurar, mas ele simplesmente ficou parado, sem se mexer.”
A carne do tubarão os alimentou por nove dias, até o 38º dia.
A Salvação
Choveu intensamente nesse dia. No início da tarde, estavam conversando sobre comida e um café que conheciam.
“Então, meu pai estava falando sobre o café, olhando para o outro lado do mar, e de repente diz: ‘Há um navio ali’. E continuou falando sobre o café. Eu, do meu lugar, não conseguia ver o navio. Perguntei: ‘Você acabou de dizer que viu um navio?’ E meu pai respondeu: ‘Sim, há um navio ali. Um navio. Um navio!’…”
Foi então que ele percebeu a gravidade da situação e exclamou: “Pegue os sinalizadores!” Acendeu o primeiro sinalizador, mas nada aconteceu; o navio continuava seu curso. Passei a ele o último sinalizador, que ele acendeu e segurou firmemente, até que o facho queimasse sua mão, antes de finalmente lançá-lo ao mar.
De repente, o navio alterou seu curso e logo soou a buzina. Eles estavam salvos.
“Foram puxados para o navio, um japonês. Todos sujos, cobertos de sangue e gordura, e com um odor forte! O capitão nos olhou e, em inglês meio ruim, disse: ‘Todos para o chuveiro!’”
No dia 23 de julho de 1972, após 38 dias perdidos no mar, foram finalmente resgatados por um barco pesqueiro japonês, o Toka Maru II, que estava a caminho do canal do Panamá e avistou o sinalizador de emergência.
Naquele momento, os Robertson e Robin Williams haviam percorrido 1.200 quilômetros à deriva e estavam a pouco menos de 500 km da terra firme.
Quando chegaram ao Panamá, dias depois, foram recebidos por veículos de imprensa e mídia do mundo inteiro. À noite, no hotel, Douglas finalmente teve a chance de visitar um restaurante pela primeira vez.
“Olhei o cardápio e pedi um brunch, com bife e ovos. Comi três desses,” conta Douglas, rindo. “Quinze minutos depois, vomitei. Meus olhos estavam maiores que minha barriga!”
A família e Robin estavam anêmicos e desidratados, tendo perdido muito peso, mas, surpreendentemente, nenhum deles precisou de tratamento sério. Após a liberação dos médicos, viajaram para casa. Robin pegou um avião para ver sua mãe na Inglaterra, enquanto Douglas e o resto da família tomaram um caminho mais lento, retornando de navio. Ali, reencontraram Anne, a filha mais velha, que havia permanecido nas Bahamas.
Douglas ingressou na Marinha e, mais tarde, dedicou-se à compra e venda de iates.
Anos depois, lançou o livro A Última Viagem da Lucette, que narra a incrível história dos 38 dias perdidos no mar.



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